Tanta gente a fazer tanta coisa,
E eu aqui sentado a escrever numa folha de papel.
Sou apenas dono da minha filosofia doida e descabida,
E sou mais hipócrita que ninguém.
Vou para a varanda, limito-me a ver o mundo construir-se,
A cair , a reconstruir-se, e a cair outra vez.
Se de um lado vejo a floresta do outro vejo a cidade,
Ambos são rápidos a fazer o mundo crescer, e eu aqui,
Limitado por mim mesmo a ver.
Tanta gente que caminha pelas ruas,
Tantos pensamentos de grandeza efémera,
E eu aqui, a passar, e a pensar no que vou fazer a seguir.
Já nem sei se o Mundo me ignora, ou tem vergonha de mim.
Eu visto a minha roupa todos os dias,
Saio todos os dias, e escrevo às vezes do que penso que sei.
Sei, o que eu sei, sei que nem sirvo para nada nem nada serve para mim.
O derradeiro fantoche, a pequena amostra de gente.
Se calhar , se eu pensasse em algo que nao existe,
E o fizesse levitar de filosofia a matéria,
de estupidez imaginária a estupidez palpável,
Se calhar então seria capaz de nao ser só um reflexo agoniante ,
Ou um erro massivo do nosso qualquer criador.
Mas não, tenho frio, e minha psicologia é o meu umbigo.
Tenho o mundo a meus pés,
porque o meu mundo no momento do meu unico pensamento,
É uma camisola de lã, para afastar o frio.
Ainda não pensei no sol, mas visto que nada faço,
Nao terei problemas nem falta de tempo para pensar nele,
Quando vier. E depois há-de ir. Porque é mesmo assim.
E nem será capaz de ser doutra forma. Penso por falta de pensamento,
E talvez por nao acreditar no vácuo de ideias,
Como seria se tudo o que viesse ficasse e não voltasse.
Estaria o mundo tropeçando em pessoas, em histórias, em memórias
De quem já nada mais tem . E eu também .
Nem memórias tenho, e se tivesse, então o mundo que mas fizesse esquecer,
Só no intuito de nao ter nada para me lembrar.
É tao aborrecido lembrar do que já fiz,
E pensar que até fiz algo. Mas nao quero saber.
O que faço, o café que bebo ou a bolacha que como sem pensar,
São a única coisa que fiz para mim. E depois de acabar, volto sem fazer nada.
A vida é uma estrada, que se vai apagando aos poucos.
E quem a tenta reescrever é louco, nao pela extensão a fazer,
Mas pelo que se vai apagando atrás. Porque não fica, nem é para ficar.
Imagino, nao penso ( recuso-me a pensar ) , que caio na rua.
Imagino que tropeço numa pedrinha qualquer,
E me magoo em qualquer lado.
Que ninguém me viria ajudar,
Quer seja pela inerencia visivel da minha loucura,
Quer seja porque talvez me confundissem com qualquer animal,
Que nao pensa, que é irracional, que é ilógico, que estava bem morto.
Mas eu penso, penso que não quero pensar,
porque ao pensar, não sou mais que qualquer outro,
Que gosta de sentir o peso do céu.
Eu cá nao gosto, astronomia nao é para mim.
Gostava de conhecer aquela rapariga que passa por mim,
Mas não tenho tempo para pensar quem é.
Engraçado saber pensar quem ela é , e não ter nem noçao de quem sou.
Engraçado, ou triste ?
Resta-me imaginar como seria se Deus quisesse que eu pensasse,
E eu tivesse de pensar, se era engraçado ou triste,
Nao saber quem sou.~
Mário Neto.
segunda-feira, 13 de outubro de 2008
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