segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Sente Amor,

O portão estava aberto, e o chão tremia,
À medida que o véu negro da noite ia digerindo toda a luz à sua volta.
Ele caminhou por entre as campas e os mausoléus,
Por entre os uivos e o silêncio da noite, pela morte e pela vida,
E por si mesmo, até chegar ao seu destino.
O vento escrevia na campa o nome de Joana, uma campa sem qualquer gravação.
Corria nas ruas o conto da pobre rapariga assassinada, e o pobre rapaz que a amava.
E ele entoava algumas palavras, à medida que olhava para a campa.
" E o mundo, e os seus olhos, decapitam, e meditam, e descreditam, e assassinam. O lixo do mundo é o mundo em si, e que se dá de si,e que morre em si, e que foge em si de si mesmo."
Esta última expressão, ele repetia, uma duas três vezes, até voltar ao ínicio.
A lua foi-se escondendo entre as nuvens, e nem o silêncio ensurdecedor dos mortos o intimidava.
Do chão saiam larvas, baratas, aranhas, e subiam por ele, num frenezim,
E ele fitava a campa, à medida que repetiu pela última vez a última expressão.
"E que foge em si de si mesmo."- e terminou, - " Tudo o que vemos é tudo o que temos, tudo o que temos é a certeza. E concerteza, que esta está morta."
Apontou então um revolver à sua cabeça, encostou-se à campa, e disparou sobre si mesmo o seu único destino certo. Os necrófagos espalharam-se sobre ele, como o sangue escorreu sobre a campa, e o suspiro final soou como o nome da sua amada.
E nada mais há a dizer, o Mundo precisa de sacrifícios para comer, e de carrascos para os servir.

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