Eu sou quem sou. Quem me vê de relance vê-me por inteiro, sou um mero passageiro da minha aparência. Vêem olhos que são da cor que querem quando querem, e a sua expressão é escassa, bruta e devassa. Espalham ao seu redor um fedor imenso e emaranhado em essências intensas da indiferença e da apatia. Vêem um cabelo mal tratado a que nada se tem a dizer. Essa minha aparência é esta, aqui definida por um par de linhas. ( E, parecendo que não, demonstro aqui a minha inaptidão incrível ao raciocínio lógico e matemático. )
O que eu sou, e o que me define, é um conjunto de proposições indefinidas. Não sei do que sou capaz, não sei quem sou e quem vou ser, não sei se não morrerei até amanhã. ( Talvez com a morte a vida ganhe significado. ) E não sei também outras mil e uma coisas que outrém sabe, não me preocupo em sabê-las e critico quem tem um apetite ávido de as saber.
Eu cá nem sei como ávido se escreve, o som não desmistifica a tonalidade, na verdade é o contrário. A cor da palavra, o seu paladar e o seu sentido ultrapassam o seu som. Não importa se a pronunciamos bem, não importa se para nós o significado é diferente, importa sim o que sentimos quando as dizemos. As palavras falam, cantam, entrelaçam, esvoaçam, dão vida, alegram, entristecem, matam.
E o meu ser não é mais que uma palavra, para a qual ninguém encontra significado, som ou sentido. Será uma palavra estranha, disso tenho a certeza. Consigo definir-me completamente, tendo em conta o que sei de mim mesmo, com a palavra "estranho". Tenho um massivo desejo de auto-destruição, não sou como ninguém que conheço,e ninguém me conhece como sou. Quando somos estranhos, não existe a percepção do certo e do errado, enlaça-se o desejo num emaranhado de acontecimentos e emoções. Quando somos estranhos, não sabemos o que sentimos, nem sabemos se o que sentimos são na verdade sentimentos, ou então uma versão amolgada e plástica destes. Cometemos incestos e atropelamos proibições com falsas intenções desmedidas, tudo isto porque não aceitamos a normalidade e a regularidade das situações. Quando se é estranho, não se sente uma única palavra, seja ela profunda ou provocada, e quando se tem a noção de sentir, ela foge e vai voando como uma pomba, branca , esperançada e confiante, e tudo o que sobra é uma restrição imensa dentro de cada um. E digo no plural tudo o que penso que sinto, na esperança que haja pelo mundo quem se sinta como eu. E a esperança há-de voar, não fosse ela uma pomba branca, esperançada de natureza e confiante de si mesma.
Quando sou estranho , e sou em todo o segundo da minha curta estadia, encurtada e vazia pela minha proclamada mutilação, vejo-me a criar todo um enredo factualmente errado da minha vida, e vivo-a como quero, e mesmo assim é imperfeita. O que me leva a pensar, desta vez correcta e reflexivamente, que sei então que além de ser estranho, sou masoquista. E rebaixo-me em todos os momentos da minha vida, intrinseca e levemente revestida, e actuo sobre a minha loucura como se fosse uma religião errada. Religião, não é Deus nem a Razão, nem o sorriso das crianças. Religião é a música, e a melancolia, e saber que o que faço é errado em todos os momentos, todos os meus intentos são fracassados, e as minhas escolhas furadas e vazias.
Eis que apresento então a minha religião empírica, sem qualquer dogma e vazia de qualquer crença. É a estranhice, e eu sou o seu Profeta. E espero encontrar depois seguidores, que acreditem na profecia da estranhice, e a sofram como eu sofro.
É uma síndrome, esta vida, tal como é uma síndrome a minha existência.
segunda-feira, 15 de dezembro de 2008
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